Será 2019 o pior ano de incêndios na Amazônia?

 

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Os recentes fogos na Amazónia provocaram as mais variadas reacções por parte dos media, da sociedade civil, de personalidades como o Cristiano Ronaldo e até uma troca de palavras mais acesa entre o Presidente Francês Macron e o Presidente Brasileiro Bolsonaro.

Há muito sobre os incêndios da Amazónia brasileira e boliviana que merecem a nossa preocupação ou no mínimo a nossa atenção, o puro tamanho e antiguidade e marco natural mundial que a Amazónia representa seria apenas um começo. Em parte alguma neste artigo de opinião pretendo minimizar a importância da protecção da floresta Amazónica.

Infelizmente muito daquilo para que se chama a atenção é o contrário do que deveria. Como em tudo o que ganha uma atenção deste tamanho, a abrir telejornais por todo o mundo, com manchetes nos jornais e até pseudo-manifs do Bloco começa a surgir a desinformação. Celebridades e líderes políticos culpam o recém-eleito presidente Bolsonaro pelos incêndios e por destruir os “pulmões da terra” que produzem 20% do oxigénio, algo que é obviamente falso mas como é daquelas mentiras curiosas, nem pensamos bem no assunto e passa-nos ao lado, quem teria obrigação de saber melhor que nós seriam os “especialistas” mas desses temos pouco e ainda ontem na SIC um indivíduo algo agressivo repetia este número, tal como fez o Presidente Macron e mesmo o nosso melhor do mundo Cristiano Ronaldo, os melhores também erram… As fotos usadas por estes também não são destes incêndios, a foto que o Ronaldo usou era de 2013 e longe da Amazónia a foto que o Macron e o DiCaprio usaram tem mais de 20 anos, o Bloco de Esquerda também usou uma foto bastante antiga e foram partilhadas fotos dos incêndios da Califórnia, incêndios na Índia e na Suécia também.

A história dos 20% de oxigênio produzido é uma das grandes mentiras que, repetida até à exaustão, continua a ser mentira. A contribuição da floresta da Amazónia para o oxigénio mundial é aproximadamente zero! “Precisamos de oxigénio para sobreviver!” dizia o astronauta Scott Kelly há uns dias. Precisamos, mas não o vamos buscar aos “pulmões da terra”. O mito parece remontar à década de 60 e poucos anos mais tarde foi desmistificado, como dizia o cientista Wallace Broecker que denunciou o número como absurdo, “Temos centenas de outras maneiras de pôr o futuro dos nossos filhos em risco sem termos que sequer considerar as nossas fontes de oxigénio.”.

Estudos apontam que a Amazónia é responsável apenas por 6% do oxigénio mundial, sendo que o phytoplankton nos oceanos produz cerca de metade do oxigénio. Mas isto não é a história completa visto que as árvores não produzem simplesmente oxigénio, mas também o consomem, isto juntamente com todos os microrganismos que habitam a floresta faz com que o seu efeito para o oxigénio mundial seja aproximadamente zero.

 

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Outro tipo de informações também pode parecer exageradas. Por exemplo a CNN afirmou no seu painel que os fogos na floresta eram sem precedentes nos últimos 2000 anos. O número de fogos em 2019 é de facto 80% maior que em 2018, no entanto se fizermos uma média dos 10 anos anteriores é apenas 7% maior. O pior período para a floresta brasileira parece ter sido entre 2003 e 2008 mas pouca gente culpou Lula da Silva pelos efeitos. O New York Times diz ainda que a maioria dos fogos são feitos por agricultores a preparar a terra para o cultivo do ano seguinte que dizem ser uma prática comum. E como podemos ver acima o número de fogos nem se aproxima de outros anos. Na primeira imagem podemos ver que os fogos coincidem quase perfeitamente com a zona já previamente desflorestada. A maioria destes são então parte de uma prática agrícola comum que coincidem com todos os anos anteriores desde que há registos.

 

 

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Uma parte preocupante é o facto de alguns incêndios, devido a uma quebra na humidade, terem-se espalhado a zonas florestais e terem saído fora de controlo. Algo que também é preocupante é, por vezes, esta prática ser usada de forma abusiva para ganhar controlo sobre áreas previamente desocupadas.

Infelizmente o que está a acontecer no Brasil este ano não é excecional, mas a opinião pública não estava de todo tão interessada no assunto, o que mudou? A nova presidência, muito provavelmente parte da histeria e atenção desmesurada a um evento aparentemente comum, está ligada ao recém-eleito presidente Bolsonaro. Entre outras coisas é acusado de ter reduzido o investimento a organizações de protecção ambiental, no entanto, esta redução em fundos começou em 2011 quando Dilma Rousseff formou governo com o intuito de ajudar ao desenvolvimento económico e atrair investimento. O trabalho da agência Ibama, por exemplo, foi considerado um sucesso por entre 2004 e 2012 terem reduzido a taxa de desflorestação em 80%. Críticos dizem, no entanto, que visto 2004 ter sido um ano recorde tanto em incêndios como desflorestação que uma redução grande seria expectável, esta redução continuou durante alguns anos também aliado a uma recessão em 2015 e 2016, algo que também forçou a continuação dos cortes a estas agências. Com a recuperação da economia seria expectável um recomeço de certas actividades até então a funcionar a meio gás. Isto, no entanto, não iliba o presidente Bolsonaro de possíveis culpas, mas também não o torna culpado de tendências com várias décadas. (Como demonstra o gráfico abaixo com a desflorestação anual.)

Existem muitas outras razões para nos preocuparmos com a Amazónia, no entanto, se “perdermos” o nosso tempo com preocupações infundadas acabamos por direcionar recursos para combater problemas inexistentes, como o caso que está a ser construído contra Bolsonaro de “Ecocídio” para entregar no tribunal internacional em Haia.

Um dos maiores problemas que afecta a Amazónia é a desflorestação. Há relatórios que indicam que se a desflorestação voltar aos níveis que foram atingidos em 2005 e 1995 pode levar a uma cadeia de eventos que possivelmente poderão mudar a essência florestal amazónica, algo que pode também afectar o padrão das chuvas potenciado por mudanças climáticas poderá ter efeitos desconhecidos. O que por si não diz muito, mas na dúvida, é sempre melhor conservar.

Toda a atenção mediática levou Bolsonaro a enviar o exército para ajudar no esforço de combate aos incêndios, algo que poderá ter sido precipitado segundo alguns ambientalistas devido ao tipo de combate e foco em apagar todos os incêndios sendo que alguns podem ser positivos até no controlo de pestes, por exemplo. Chamam também atenção para a Aliança da Terra uma organização que tem ajudado agricultores nas suas produções, mas também no combate a incêndios em vários países na América Latina. A protecção da Amazónia é um assunto de extrema importância, no entanto, focando nos problemas e nas questões erradas, com uma mobilização para o histerismo e não para as devidas causas e possíveis soluções do problema, acabam por se criar mais problemas que aqueles que resolvem.

 

Duarte Vieira

Duarte Vieira